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As bonecas da minha infância

08.02.2017

 

 

 

 

Eu tinha uns cinco anos, por aí, e o barulhinho da máquina de costura era som ambiente no apartamento de esquina, em frente à fábrica da Phebo. Minha avó pilotava habilmente os pedais daquela Singer cor de burro quando foge. “Vamos fazer um vestido?”, ela perguntava já puxando a fita métrica.

E foi aí que começou.

 

No carnaval era um luxo só: minha mãe aproveitava pra fazer uma festa conjunta para mim, capricorniana de janeiro, e para meu irmão, de Aquário, e a vó Teté bolava a fantasia. Teve de paquita, de ciganinha, marinheira, bailarina… No Natal também os looks eram super personalizados. Aquelas roupas de Barbie então? Era só desenhar que ela fazia.

 

Então eu desenhava, desenhava e desenhava. Passava o dia inteiro afundada no meio dos papéis e canetas hidrocor. “Não quero mais ir pra aula. Quero ver He-Man e desenhar”. Era uma briga todo dia.

 

 

 

Em 85, a novela Ti ti ti apresentou pro Brasil Jacques Leclair e Vitor Valentim, os estilistas inimigos, afetadíssimos inspirados em Dener e Clodovil. Eu não fazia ideia de quem eram, mas quando eu desenhava e criava as roupas com minha avó, minha mãe dizia que a gente era tipo eles. Depois veio aquela novela Vamp, onde "beleza selvagem" da Claudia Ohana brilhava como Natasha, a vampira cantora. E eu, que logo começava a me achar super adolescente, queria ser ela.

 

Como não podia, inventava tudo com papel e caneta. No meu mundo, Natasha era diretora de uma escola de vampiras adolescentes fashionistas.
Desenhei as alunas, professoras, coordenadoras, os namorados, amigos, parentes de cada personagem. Quase todos góticos ou com visual inspirado na Xuxa. Ali eu podia ser quem eu quisesse, brincar qualquer brincadeira. Podia até voltar no tempo. E foi o que aconteceu.

Minha mãe, professora que é, logo me colocou pra ler a coleção de Machado de Assis para crianças. E aí surgiram milhares de personagens de época, com seus looks da alta moda do Rio de Janeiro do começo do século XX. Ahh e eles estudavam na mesma escola das alunas vampirescas, viu? Nesse meu mundo, Capitu podia muito bem ser amiga da Natasha.

 

Quando vovó foi embora, foi triste. Não tinha mais aquele colo fofinho, nem biscoito de padaria no meio da tarde ou as histórias que ela contava, muito menos roupa personalizada pra bonecas. Mas ela deixou uma herança maior do que tudo isso, maior do que qualquer coisa na minha vida: compreender que a imaginação em conjunto com a moda nos permite ser quem a gente quiser e que as roupas que a gente escolhe usar são uma expressão de criatividade. Elas, as roupas, nos permitem sentir maravilhosos ou meio caídos, super confiantes ou inseguros. Cada peça uma coisa de caimento, toque do tecido, cheiro, memória, capaz de nos levar pelos corredores de sensações mais loucos. Por isso não importa o quanto a moda possa parecer algo superficial, ela diz muito mais respeito de como você se sente do que de como você se parece.

 

 

 

Algumas pessoas dão mais atenção que outras, mas pensar sobre nosso próprio estilo deveria ser coisa cotidiana, uma manifestação artística em que todos têm oportunidade de tomar partido. Afinal de contas todo mundo precisa se vestir pra sair na rua, né?

 

Enfim, só contei essa história porque queria mostrar minhas bonecas. Encontradas há uns 3 anos, pela minha tia a quem nunca consegui agradecer o suficiente, elas estavam mofando no fundo de um armário em Belém. Agora estão aqui, devidamente escaneadas e mantidas naqueles plastiquinhos de fichário, sempre me relembrando de onde veio esse meu gosto contínuo e crescente pela moda.

 

 

 

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